Pobre só pode ser enterrado em Salvador se outro for desenterrado

Com a prorrogação da suspensão de sepultamentos no cemitério Quinta dos Lázaros por mais um mês, agrava-se o problema de falta de espaço para novos sepultamentos na cidade. A situação afeta a população de baixa renda da cidade, que depende de cemitérios públicos para enterrar seus mortos. Além da Quinta dos Lázaros, único gerido pelo estado, essa camada da população conta ainda com dez outros que estão a cargo do município.

Mas a secretária municipal de Ordem Pública, Rosemma Maluf, admite que em quase toda a situação seja a mesma. “Para cada sepultamento hoje é necessário uma exumação, ou seja, temos que limpar uma cova, retirando os restos mortais que ocupava o espaço, para que outro corpo possa ser enterrado”, revelou.

Segundo a secretária, dos dez cemitérios municipais, em três deles a situação é mais grave. Plataforma, o maior deles (com aproximadamente 18 mil m²), que tem uma média de 11 sepultamentos por dia; Periperi, com a média de oito por dia e Paripe com sete. “A situação nesses três é mais difícil pelo fato de atenderem a áreas com grande densidade populacional, mas a falta de espaços ocorre em quase todos os cemitérios”, revelou a secretária.

O procedimento emergencial que a secretaria – responsável também pela limpeza da cidade, pela Guarda Municipal e Salvamar, pela iluminação e gestão de mercados e do comércio informal da capital baiana – tem posto em ação para lidar com o problema tem conseguido remediá-lo. As exumações consistem em encontrar covas que estão sendo usadas por mais de três anos e seis meses. Os ossos do antigo ocupante são retirados e colocados em uma recipiente que é reenterrado, na mesma cova, numa profundidade de cinquenta centímetros abaixo do novo ocupante.

O trabalho de exumação, no entanto, é feito ao passo que os pedidos de sepultamentos chegam aos escritórios dos cemitérios. Segundo a secretária, o contingente de funcionários não é suficiente para manter covas preparadas para os novos sepultamentos com antecedência. “Há situações em que a previsão de demanda nos obriga a esforços preventivos, como, por exemplo, quando ficamos sabendo de acidentes como a explosão de uma casa em Periperi recentemente”, conta.

A própria secretária admite que se trata de uma solução que não corresponde ao respeito que os mortos e seus familiares deveriam receber do poder público. “Acho que esta situação da falta de espaço para novos sepultamentos deveria ser tratada com mais urgência, mas como os mortos não reclamam e as famílias estão tão envolvidas com a emoção da perda, o tema não chega a ser discutido”, pondera Rosemma Maluf, que assumiu a pasta na gestão de ACM Neto.

Para ela, a situação vem se agravando há muito anos, já que o crescimento populacional da cidade não foi compensado com a construção de novos cemitérios públicos. A secretária acrescenta que o descaso com o tema não é percebido somente na falta de espaço para novos sepultamentos, as condições de manutenção dos cemitérios públicos também demonstram que a eles é dado pouca atenção. “Os cemitérios deveriam ser lugares mais aprazíveis, o que é uma questão secundária perante o fato da falta de vagas, mas que deveria também ser debatida” opinou.

A falta de atenção para os espaços que recebem os mortos da população de baixa renda é também denunciada pelo coordenador do cemitério estadual Quinta dos Lázaros, Manolo Dominguez. Ele ressalta que, ao contrário do que deveria acontecer com o aumento populacional, o cemitério sob a sua coordenação, perdeu boa parte da área que tinha quando foi construído em 1785. “Do total de 14 hectares, hoje temos apenas sete”, conta.

Projetos para o sistema funerário

A secretaria Rosamma Maluf admite que a suspensão dos sepultamentos no cemitério Quinta dos Lázaros impacta o sistema funerário do município. “A situação exige resposta da secretaria e já estamos fazendo reuniões com esse intuito”, disse. Em relação ao sistema funerário municipal como um todo, que neste ano, até o mês de maio, teve uma demanda de cerca de 1500 sepultamentos, a secretária já apresenta alguns projetos.

Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre a prefeitura e o cemitério particular Bosque da Paz já está em andamento. O objetivo é formalizar contrapartidas previstas por lei. No caso, serão disponibilizadas centenas de caixas mortuárias, que serão usadas pela população de baixa renda. Acordo similar foi assinado com o cemitério Jardim da Saudade em 2009. No caso, o cemitério cedeu 60 cremações por mês para a prefeitura.

Além disso, a construção de novas caixas, que são covas elevadas e que não dependem de espaço no chão, está sendo estudada pela secretaria. “Vamos ver os cemitérios que têm espaço para essas construções e buscar recursos para efetivá-las”.

A secretária afirmou também que estudos estão sendo realizados com o objetivo de se conhecer novas soluções. “Estamos nos reunindo com empresários da área funerária, que vêm dando opiniões e informações sobre como o assunto tem sido tratado em outros países”, informou. Ela acrescentou ainda que a construção de novos cemitérios e até de crematórios também deve entrar na pauta de discussões sobre o tema.

População não adere à cremação

Umas das soluções para a falta de vagas nos cemitérios públicos é a cremação, técnica que consiste em queimar o morto e depositar os restos mortais em uma urna. Contudo, essa possibilidade oferecida pela prefeitura não tem sido bem aceita pela população. As 60 cremações oferecidas pelo cemitério Jardim da Saudade, como contrapartida à prefeitura, não estão sendo aproveitadas. Para se ter uma ideia da rejeição à técnica, nos doze meses de 2012 apenas nove cremações foram realizadas.

A secretária Rosamma Maluf, acredita se tratar de uma resistência fundada em crenças religiosas. “A opção é oferecida às famílias, mas a resistência ainda é grande”, disse. A falta de informação também pode ser umas das causas e a secretária admite que em relação a isso se pode tomar algumas medidas. “Precisamos fazer maior divulgação, mostrando as vantagens da técnica”, acrescentou.

 

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