Poá: Prefeito analisa projeto para enterrar animais junto com os donos em Poá

Principal argumento de criador da lei são laços entre donos e bichos.
Enterro seria no jazigo da família, mas medida divide opiniões.

Pedro Carlos Leite e Carolina PaesDo G1 Mogi das Cruzes e Suzano

 

Um projeto de lei que autoriza o sepultamento de animais domésticos no cemitério da cidade de Poá (SP) está causando polêmica. A proposta, que já foi aprovada pela Câmara Municipal e segue para sanção do prefeito Francisco Pereira de Sousa, determina que bichos como cães e gatos poderão ser enterrados nos mesmos jazigos que os donos. O prefeito já disse que não pretende autorizar a medida com a alegação de que é preciso maior debate com a população. Autor do projeto, o vereador Deneval Dias do Nascimento (PRB) se defende. “Nossa preocupação é tentar solucionar problemas. Deixei o projeto durante 30 dias em todas as petshops da cidade perguntando se as pessoas aprovam ou reprovam e consegui quase 300 assinaturas a favor da lei.”

Vereador de Poá com as quase 300 de apoio que obteve para o projeto de sua autoria. (Foto: Pedro Carlos Leite/G1)Vereador de Poá com as quase 300 de apoio que
obteve para o projeto de sua autoria.
(Foto: Pedro Carlos Leite/G1)

Cumprindo seu sétimo mandato no Legislativo de Poá, Deneval diz que parte da inspiração veio das grandes manifestações de junho. “Estamos sempre procurando onde melhorar, mas depois das manifestações ficou evidente que é necessário inovar em todas as áreas”. O projeto entrou em votação na última terça (5) e foi aprovado com oito votos a favor, quatro contra e quatro abstenções.

O vereador argumenta que a cidade não oferece atualmente nenhum serviço do tipo. “Este é um assunto que também está sendo discutido na Câmara de São Paulo. A população não tem destino para dar para os animais aqui em Poá. O município tem 17 quilômetros quadrados e praticamente não tem zona rural. Conheço gente que saiu com enxada para enterrar o cachorro e não achou onde cavar. Não é obrigatatório enterrar no cemitério e não vai ter custo nenhum”, afirma.

O principal argumento são os laços emocionais que o dono cria com seu pet. “Eu conheço pessoas que choram quando o animal está doente, dá banho todo dia e diz ‘vem pro papai, vem pra mamãe’. Vai dar um suporte para esse pessoal dar um final para seu animalzinho”, conta o verador, que diz também ser dono de um cão que, quando chegar a hora, será sepultado conforme seu projeto de lei.

A dona de casa Waldicléa Costa da Cruz é dona de uma pinscher chamada Mel que é a xodó da casa. Eu e meu marido não temos filhos. Ela representa tudo pra gente. A gente brinca, leva no parque”, afirma. Ela diz ser a favor do sepultamento de cães, mas de uma maneira um pouco diferente. “Eu ia gostar de que ela fosse enterrada no cemitério, mas é bom ter um espaço próprio para eles.”

Cão vira lata Nininho, que pertence à dona da banca de jornal e tem casinha ao lado da banca. (Foto: Pedro Carlos Leite/G1)Cão vira lata Nininho tem casinha ao lado da banca de jornal da dona. (Foto: Pedro Carlos Leite/G1)

Dona de uma banca de jornal na região central de Poá, Ana Maria do Nascimento está sempre acompanhada da basset Nina e do vira-lata Nininho, que tem até uma casinha ao lado da banca. “Todos os cachorros que eu já tive eu mandei cremar porque não tinha onde enterrar. Eu acho válido, mas é uma coisa a se pensar. Tem que ver se os outros membros da família vão concordar em ter o cachorro enterrado no jazigo. Eu acho que deveria ter um lugar só para eles”, afirma.

O operador de empílhadeira Lealdino Ferreira de Oliveira diz que gosta de animais, mas é totalmente contra a iniciativa. “Cachorro meu eu faço buraco e enterro no quintal, mas o certo era deixar para o urubu comer porque é da natureza. Cemitério é lugar sagrado, é do descanso das pessoas”, acredita.

Lei prevê que cães sejam enterrados junto com donos em cemitério de Poá. (Foto: Pedro Carlos Leite/G1)Lei prevê que cães sejam enterrados junto com donos em cemitério de Poá. (Foto: Pedro Carlos Leite/G1)

Alternativas
De acordo com o médico veterinário Marcos Massao Hossomi, a destinação dos animais domésticos ainda é um assunto pouco discutido. Na clínica particular onde Hossomi trabalha, em Mogi das Cruzes, os clientes são orientados a contratar um serviço especializado em sepultamento e cremação de animais. “Há cerca de cinco anos temos uma parceria com um cemitério de animais, em São Bernardo do Campo. Fora esse sei que existe também outro no Parque do Carmo. Porém, por não ser algo tão comum o serviço acaba sendo um pouco caro. Por isso, muitas pessoas acabam enterrando os animais em qualquer lugar.”

O veterinário alerta que o sepultamento inadequado dos animais de estimação pode ser um risco tanto para a saúde quanto para o meio ambiente. “Não recomendo enterrar em qualquer lugar, pois todo corpo em decomposição libera substâncias que podem infiltrar no solo e contaminar água de poços e até o lençol freático”, explica. “Essa proliferação de bactérias pode causar nas pessoas, entre outras coisas, intoxição e diarréia”, diz Hossomi.

O veterinário ainda explica que não existe uma legislação específica que fale sobre a destinação de animais domésticos e, por isso, as clínicas veterinárias não podem impedir que o dono leve seu animal embora, mesmo morto. “Não temos como obrigá-lo a aderir ao serviço ou então segurarmos o animal. Não existe uma lei específica sobre isso. O que fazemos é orientar. Existem meios de destinação mais apropriados e seguros, mas quando o cachorro morre de alguma doença perigosa e contagiosa frisamos bem o risco. Nesses casos, 100% das pessoas optam pela cremação.”

A crescente relação afetiva com os animais de estimação, nos últimos tempos, segundo Hossomi, tem feito aumentar a procura por esse tipo de serviço. “Hoje em dia as pessoas tratam os animais como se fossem da família. E o sepultamento ou a cremação se tornam uma forma de prestar uma homengam para aquele que sempre acompanhou a família”, conta.

 

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